terça-feira, 29 de abril de 2014

DISCURSO DE POSSE DA NOVA DIRETORIA DO SINPOL
Exmº Sr _____________, Exmº Sr _____________, Exmº Sr _____________, Exmº Sr _____________, Exmº Sr _____________, senhoras e senhores policiais, queridos familiares, estimados amigos.
Finalmente, aqui chegamos. Depois de uma longa jornada, o Sinpol/DF agora retorna a seus legítimos proprietários: os policiais civis.
Há um ano e meio, um pequeno grupo de sonhadores resolveu desafiar o status quo. E decidiu que era necessário mudar os paradigmas do sindicalismo policial da Capital Federal.
Nosso sindicato, outrora forte e combativo, sucumbiu às influências perniciosas da política partidária e aos interesses eleitoreiros de ocasião. O declínio da nossa entidade disseminou entre os policiais o descrédito, a apatia e a desunião.
Com muito planejamento, união e, acima de tudo, muita força de vontade, lutando contra um adversário poderoso, este pequeno grupo conseguiu resgatar um pouco da esperança perdida. Aos poucos, nossa voz ganhou eco e nosso corpo, musculatura.
Nascia o Movimento EPAS/PCDF, que tomou conta das redes sociais e dos corredores da polícia. Um precioso canal de comunicação surgiu e toda a insatisfação acumulada transformou-se em um novo espírito de luta. A batalha foi vencida. Lutamos por isso e não fugiremos à responsabilidade.
O bastão do Movimento, antes conduzido por esse grupo, foi repassado a novas lideranças. Rogamos a todos para que, sempre atentos, prossigam fiscalizando seus representantes e apontando novos caminhos.
Como diz um grande sindicalista, meu amigo e diretor Fernando Ferreira, um sindicato existe para lutar e defender seus filiados, os trabalhadores. Se não serve para isso, melhor fechar as portas. 
Complemento dizendo que devemos buscar sempre o diálogo franco, sincero, conduzindo os interesses coletivos com absoluta transparência. A forma como seremos tratados por nossos interlocutores, dará a tônica de nossa resposta.
Durante a campanha, nossa proposta de trabalho baseou-se em 3 grandes eixos, que iremos implementar enquanto Diretoria.
O primeiro, de âmbito interno, tem a ver com a publicidade e transparência dos atos e contratos da entidade, e com uma gestão compartilhada na tomada de decisões.
Há um grande anseio da categoria em saber como são geridas as finanças de nossa entidade sindical, que possui uma arrecadação superior a muitos municípios do nosso país. Como são realizados os contratos? Quem e quantas são as pessoas atendidas por estes contratos? Qual a qualidade dos serviços prestados? Por outro lado, os policiais se ressentem com o modo pelo qual são alijados das decisões que envolvem assuntos vitais para a categoria policial. Até então, a entidade eximia-se de fomentar o engajamento e a discussão entre a sua base. Ao seu próprio talante, assumia posições públicas sobre temas bastante sensíveis, sem realiza qualquer tipo de consulta a seus filiados. Nesse particular, traremos grandes inovações. Relatórios e demonstrativos serão divulgados nos meios eletrônicos, com acesso restrito aos sindicalizados. E as decisões fundamentais, sempre que possível, serão discutidas exaustivamente pela categoria. Faremos valer a democracia.
O segundo eixo, de maior incidência no âmbito externo, diz respeito a uma gestão independente de interferências político-partidárias e centrada numa forte atuação legislativa, pautada preferencialmente por critérios técnicos e amplo respaldo jurídico.
O terceiro será a luta pela redefinição das atribuições dos cargos da instituição, para que se tornem compatíveis com a qualificação de nível superior de que desfrutam. Esse tema é vital para o bom funcionamento da nossa gloriosa PCDF. É preciso que todos percebam isso, principalmente os nossos gestores. É preciso voltar os nossos olhos para dentro. Algo não está bem, a insatisfação permeia nosso ambiente de trabalho e isso não passa somente pela defasagem salarial ou pela falta crônica de efetivo. Queremos a valorização do trabalho policial por excelência. QUEREMOS UMA POLÍCIA PARA POLICIAIS.
Um outro ponto importante a ser lembrado é que ficou muito claro ao longo dos últimos anos o quanto a atuação sindical conduzida sempre por um viés político traz prejuízos aos legítimos pleitos da nossa categoria. A própria imagem da instituição Polícia Civil foi maculada por disputas internas e pela ingerência constante da política local. De maneira que este tema deve ser objeto de reflexão para que possamos repensar o futuro da nossa instituição. Somos um órgão de Estado e devemos, de maneira republicana, servir aos interesses da sociedade, e não aos caprichos de pequenos grupos ou partidos.
O fato de sermos uma gestão apartidária não implica a falta de diálogo com as mais diversas tendências políticas, seja no executivo ou legislativo. O que jamais irá acontecer, nessa gestão, é sermos conduzidos por um único político ou partido, que tente fazer dos policiais civis o seu "curral eleitoral". Terão nosso apoio e gratidão todos aqueles que encamparem os nossos pleitos, e os nossos pleitos apontam para uma Segurança Pública de qualidade, uma Polícia reconhecida, valorizada e respeitada pela comunidade.
Hoje estamos muito voltados para um modelo gerencial de metas e estatísticas, perdendo-se o foco das grandes investigações. Estamos mais preocupados com quantidade do que com qualidade. E este modelo, que muitas vezes produz resultados enganosos, tem negligenciado algumas questões importantes, como a própria vocação e realização profissional do policial, que não é um funcionário público qualquer, mas um indivíduo que exerce um sacerdócio, um trabalho árduo e difícil, e perigoso, que se move por ideais e não se contenta apenas em atingir metas e aumentar o número de procedimentos, mas em salvar vidas, em resguardar o patrimônio, em manter a paz social e defender a sociedade de seus mal-feitores.
No afã de atender as necessidades da mídia e de bater recordes oficiais, nossos policiais tem deixado de estar nas ruas, tem deixado de realizar treinamentos e atualizações, tem deixado de prestar um melhor apoio aos demais colegas, negligenciando até a comunicação nas investigações. Essa falta de interação e a busca desenfreada por metas torna os policiais mais competitivos entre si e, por consequência, mais individualista. Esquecemos que o trabalho policial é essencialmente um trabalho em equipe e que a vida de cada policial está nas mãos de seus colegas.
É preciso ainda que deixemos de cumprir funções que não são nossas, a exemplo das rondas ostensivas e barreiras policiais. Nossa atividade-fim, de polícia investigativa e polícia judiciária, deve ser incentivada, valorizada, exaltada no âmbito interno e externo.
Nossa vocação é constitucional e dela não podemos nos apartar, sob pena de outros dela se apropriarem, como já vem acontecendo.
E é importante frisar que este papel constitucional é exercido não só por um dos cargos da PCDF, mas por todos os 7 cargos que compõem nossa estrutura. Cada um deles tem seu papel preponderante no desenvolvimento de nossa atividade fundamental, qual seja, a de esclarecer a materialidade e apontar a autoria dos crimes.
A redefinição das atribuições de cada cargo, que significa a normatização das atividades que de fato já são realizadas, irá apaziguar o ambiente interno, trazer segurança, criar estabilidade, ampliar a confiança nas relações de trabalho.
O hiato salarial entre os diversos cargos também causa desconforto e a diminuição ou supressão dessa diferença precisa ser discutida e implementada. Não há motivos plausíveis para a chamada "trava salarial", que impede outras carreiras de galgarem melhores subsídios. Somos todos cargos de nível superior, cada um com sua respectiva atribuição.
Outro fator importante que precisa ser implementado no âmbito da instituição é o concurso de remoção com critérios objetivos, com vistas a dar garantias ao servidor. Devemos encerrar esse capítulo da nossa história, no qual permutas e remoções ocorrem como forma de punição "branca" ou decorrem das idiossincrasias de um chefe momentâneo. Isso contraria os princípios mais elementares da administração pública e não será tolerado.
Em breve, cerca de 1.200 policiais deverão tomar posse. Vamos dar oportunidade para que os colegas mais antigos na instituição procurem sua lotação de preferência, utilizando-se critérios relevantes como experiência e qualificação profissionais. É uma forma de valorizá-los.
Aguardamos ansiosamente a chegada dos novos policiais civis e desejamos que todos entrem o mais rápido possível. Entretanto, é preciso prepará-los de forma adequada. A capacitação continuada em técnicas de abordagem, estudo de casos e cumprimento de mandados os deixará mais preparados do que apenas as aulas de armamento e tiro , TIP, que, diga-se de passagem, são ministradas por excelentes instrutores. A formação dos novos policiais também deve priorizar ao máximo as disciplinas que envolvem técnicas e doutrinas de investigação criminal. Esse é cerne do nosso trabalho.
Portanto, alertamos novamente que não basta a quantidade e sim a qualidade. Nossa função é de risco, de alta complexidade técnica e isso precisa ser repassado aos que chegam.
De nada adianta, porém, nomear vários policiais e, na sequência, inaugurar diversas Delegacias, pois a cada nova unidade criada, um bom número de policiais é desviado para serviços administrativos. Concordamos que há demanda. Entretanto, essas inaugurações nos levariam para o mesmo quadro vivido hoje, uma vez que, em razão dos baixos salários e a falta de perspectiva na carreira, muitos recém admitidos acabam pedindo exoneração e ingressando em outras carreiras mais atrativas.
Rogamos ainda a nossos gestores que tenham maior atenção a saúde física e mental dos policiais. Muitos de nós têm respondido por 2 ou 3 unidades. A sobrecarga de trabalho é brutal nas seções de investigações. Pilhas e pilhas de procedimento se acumulam. Cada um tem se sacrificado enormemente e muitos têm cumprido escalas em operações e plantões de outras unidades. Todo este sacrifício tem produzido efeitos psíquicos e somáticos. É preciso investir em prevenção e o Sinpol se colocará a disposição para buscar caminhos.
Portanto, sabemos que o desafio é imenso. Mas também é imensa a disposição desta equipe em trabalhar em prol de melhorias para todos. Lutaremos pelo resgate de nossa união e autoestima, com todas nossas forças.
Em nome da Diretoria, agradecemos toda categoria pelos votos de confiança depositados nessa proposta. Lembramos que passadas as eleições agora somos um só sindicato, uma só POLÍCIA.
Agradecemos nossos familiares por este ano em que estivemos privados de um convívio mais pleno. Pedimos mais tolerância pela ausência que porventura teremos nessa nova jornada.
Tenham certeza de que todo este esforço, de que toda esta ausência é muito mais pensando em vocês do que pensando em nós.
Agradecemos a DEUS que nos fez lutar por este ideal e realizou este sonho de poucos em prol de muitos. Pedimos a Ele sabedoria e perseverança na caminhada.
Lembrando a todos que JUNTOS SOMOS FORTES. BOA TARDE.
Brasília, 29 de março de 2014.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

SEGURANÇA PÚBLICA E LUTA DE CLASSES

Percival Puggina


Em dezembro, a ministra Maria do Rosário, como presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, editou uma Resolução cuja principal finalidade era coibir o uso de arma de fogo pelos policiais. Você sabe como é. Policiais são aquelas pessoas treinadas para enfrentar, em encrencas mais ou menos grossas, até mesmo indivíduos apetrechados com armas de guerra e explosivos. A Resolução da ministra informava aos bravos profissionais, escassos, mal pagos e em desvantagem no equipamento, que, se puxassem o gatilho no exercício de sua atividade - ai deles! Sairiam da encrenca com o crime para um rolo com os inquéritos e com a Justiça.

A criminalidade - tenho como coisa óbvia - venceu a guerra que empreendeu contra nós. Hoje, em todo o país, o crime controla a sociedade e impõe regras. Nós as acolhemos por medo e os governos por motivos ideológicos. "Como assim?", indagará o leitor. Ora, ora, nossos governantes acreditam em luta de classes. Para eles, a ação dos criminosos contra os cidadãos é uma expressão inevitável dessa luta. Ao fim e ao cabo, os bandidos realizam tarefa política compatível com o que, dominantemente, pensam as autoridades. Não esqueça que muitos dos nossos atuais governantes legitimavam, com esse mesmo entendimento, os crimes que cometiam ao tempo da luta armada, nos anos 70 e 80 do século passado. Assaltavam bancos, supermercados, roubavam automóveis e sequestravam aviões para abastecerem de recursos sua belicosa atividade. Agora, a identificação com os métodos e objetivos de então levou à complacência e à solidariedade que se derrama da Resolução nº 8 do tal Conselho. O agente policial que porta arma continua sendo visto, pelos nossos governantes, como inimigo de classe. Não se requer muitas luzes para perceber isso. Ou você já os viu expressando preocupação, manifestando condolência ou prestando apoio às vítimas da bandidagem?

Quem não gostar vá chorar deitado. É mais confortável.
A realidade que descrevi só vai mudar com uma política que se expresse em outra forma de lidar com o problema, coisa que tão cedo não acontecerá. Segundo todas as pesquisas de opinião, a sociedade está muito satisfeita com o grupo que hegemoniza a política nacional. Crê, sob fé cega, que sua insegurança é causada pelos bandidos e não pela omissão/conivência dos governos que fazem absolutamente nada - mas nada mesmo! - do que deveriam fazer, na proporção exigida, para reverter a situação. Ou seja: novas e mais rigorosas leis penais; maiores contingentes policiais mais bem apetrechados de recursos materiais e financeiros; aumento significativo das vagas em estabelecimentos prisionais; respeito aos direitos humanos dos cidadãos e das vítimas da criminalidade.

Quando a polícia do Rio de Janeiro empreendeu caçada a um dos maiores traficantes do país e o matou durante tiroteio, ouriçaram-se as autoridades contra a violência da ação. Encrenca prá cima dos responsáveis pela operação. Pior para nós, os derrotados, os desarmados, os desassistidos, os expropriados. Enquanto isso, nos Estados Unidos, poucas horas depois do atentado praticado durante a maratona de Boston, um dos terroristas estava morto e o outro preso. Sim e daí? Daí que em vez de recriminar o FBI pela "violência da operação", o presidente Obama foi para a tevê registrar o sucesso da ação e afirmar que "o mundo testemunhou uma segura e firme verdade: os EUA se recusam a ser aterrorizados". Nós afirmamos o oposto.

Zero Hora, 19 de maio de 2013. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Namorando com o suicídio

Autor(es): J.R.Guzzo
revista Veja - 28/01/2013

Se nada piorar neste ano de 2013, cerca de 250 policiais serão assassinados no Brasil até o próximo dia 31 de dezembro. É uma história de horror, sem paralelo em nenhum país do mundo civilizado. Mas estes foram os números de 2012, com as variações devidas às diferenças nos critérios de contagem, e não há nenhuma razão para imaginar que as coisas fiquem melhores em 2013 — ao contrário, o fato de que um agente de polícia é morto a cada 35 horas por criminosos, em algum lugar do país, é aceito com indiferença cada vez maior pelas autoridades que comandam os policiais e que têm a obrigação de ficar do seu lado. A tendência, assim, é que essa matança continue sendo considerada a coisa mais natural do mundo — algo que “acontece”, como as chuvas de verão e os engarrafamentos de trânsito de todos os dias.

Raramente, hoje em dia, os barões que mandam nos nossos govemos, mais as estrelas do mundo intelectual, os meios de comunicação e a sociedade em geral se incomodam em pensar no tamanho desse desastre. Deveriam, todos, estar fazendo justo o contrário, pois o desastre chegou a um extremo incompreensível para qualquer país que não queira ser classificado como selvagem. Na França, a ficar em um exemplo de entendimento rápido, 620 policiais foram assassinados por marginais nos últimos quarenta anos — isso mesmo, quarenta anos, de 1971 a 2012. São cifras em queda livre. Na década de 80, a França registrava, em média, 25 homicídios de agentes de polícia por ano, mais ou menos um padrão para nações desenvolvidas do mesmo porte. Na década de 2000 esse número caiu para seis — apenas seis, nem um a mais, contra os nossos atuais 250. O que mais seria preciso para admitir que estamos vivendo no meio de uma completa aberração?

Há alguma coisa profundamente errada com um país que engole passivamente o assassínio quase diário de seus policiais — e, com isso, diz em voz baixa aos bandidos que podem continuar matando à vontade, pois, no fundo, estão numa briga particular com "a polícia", e ninguém vai se meter no meio. Essa degeneração é o resultado direto da política de covardia a que os governos estaduais brasileiros obedecem há décadas diante da criminalidade. Em nenhum lugar a situação é pior do que em São Paulo, onde se registra a metade dos assassinatos de policiais no Brasil; com 20% da população nacional, tem 50% dos crimes cometidos nessa guerra. É coisa que vem de longe. Desde que Franco Montoro foi eleito governador, em 1982, nas primeiras eleições diretas para os governos estaduais permitidas pelo regime militar, criou-se em São Paulo, e dali se espalhou pelo Brasil, a ideia de que reprimir delitos é uma postura antidemocrática — e que a principal função do estado é combater a violência da polícia, não o crime. De lá para cá, pouca coisa mudou. A consequência está aí: mais de 100 policiais paulistas assassinados em 2012.

O jornalista André Petry, num artigo recente publicado nesta revista, apontou um fato francamente patológico: o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, conseguiu o prodígio de não comparecer ao enterro de um único dos cento e tantos agentes da sua polícia assassinados ao longo do ano de 2012. A atitude seria considerada monstruosa em qualquer país sério do mundo. Aqui ninguém sequer percebe o que o homem fez, a começar por ele próprio. Se lesse essas linhas, provavelmente ficaria surpreso: "Não, não fui a enterro nenhum. Qual é o problema?". A oposição ao governador não disse uma palavra sobre sua ausência nos funerais. As dezenas de grupos prontos a se indignar 24 horas por dia contra os delitos da polícia, reais ou imaginários, nada viram de anormal na conduta do governador. A mídia ficou em silêncio. É o aberto descaso pela vida, quando essa vida pertence a um policial. É, também, a capitulação diante de uma insensatez: a de ficar neutro na guerra aberta que os criminosos declararam contra a polícia no Brasil.

Há mais que isso. A moda predominante nos governos estaduais, que vivem apavorados por padres, jornalistas, ONGs, advogados criminais e defensores de minorias, viciados em crack, mendigos, vadios e por aí afora, é perseguir as suas próprias polícias — com corregedorias, ouvidorias, procuradorias e tudo o que ajude a mostrar quanto combatem a "arbitrariedade". Sua última invenção, em São Paulo, foi proibir a polícia de socorrer vítimas em cenas de crime, por desconfiar que faça alguma coisa errada se o ferido for um criminoso; com isso, os policiais paulistas tornam-se os únicos cidadãos brasileiros proibidos de ajudar pessoas que estejam sangrando no meio da rua. É crescente o número de promotores que não veem como sua principal obrigação obter a condenação de criminosos; o que querem é lutar contra a “higienização" das ruas, a “postura repressiva” da polícia e ações que incomodem os “excluídos”. Muitos juizes seguem na mesma procissão. Dentro e fora dos governos continua a ser aceita, como verdade científica, a ficção de que a culpa pelo crime é da miséria, e não dos criminosos. Ignora-se o fato de que não existe no Brasil de hoje um único assaltante que roube para matar a fome ou comprar o leite das crianças. Roubam, agridem e matam porque querem um relógio Rolex; não aceitam viver segundo as regras obedecidas por todos os demais cidadãos, a começar pela que manda cada um ganhar seu sustento com o próprio trabalho. Começam no crime aos 12 ou 13 anos de idade, estimulados pela certeza de que podem cometer os atos mais selvagens sem receber nenhuma punição; aos 18 ou 19 anos já estão decididos a continuar assim pelo resto da vida.

Essa tragédia, obviamente, não é um “problema dos estados”, fantasia que os governos federais inventaram há mais de 100 anos para o seu próprio conforto — é um problema do Brasil. A presidente Dilma Rousseff acorda todos os dias num país onde há 50000 homicídios por ano; ao ir para a cama de noite, mais 140 brasileiros terão sido assassinados ao longo de sua jomada de trabalho. Dilma parece não sentir que isso seja um absurdo. No máximo, faz uma ou outra reunião inútil para discutir “políticas públicas” de segurança, em que só se fala em verbas e todos ficam tentando adivinhar o que a presidente quer ouvir. Não tem paciência para lidar com o assunto; quer voltar logo ao seu computador, no qual se imagina capaz de montar estratégias para desproblematizar as problematizações que merecem a sua atenção. Não se dá conta de que preside um país ocupado, onde a tropa de ocupação são os criminosos.

Muito pouca gente, na verdade, se dá conta. Os militares se preocupam com tanques de guerra, caças e fragatas que não servem para nada; estão à espera da invasão dos tártaros, quando o inimigo real está aqui dentro. Não podem, por lei. fazer nada contra o crime — não conseguem nem mesmo evitar que seus quartéis sejam regularmente roubados por criminosos à procura de armas. A classe média, frequentemente em luta para pagar as contas do mês, se encanta porque também ela, agora, começa a poder circular em carros blindados: noticia-se, para orgulho geral, que essa maravilha estará chegando em breve à classe C. O número de seguranças de terno preto plantados na frente das escolas mais caras, na hora da saída, está a caminho de superar o número de professores. As autoridades, enfim, parecem dizer aos policiais: “Damos verbas a vocês. Damos carros. Damos armas. Damos coletes salva-vidas. Virem-se”.

É perturbadora, no Brasil de hoje, a facilidade com que governantes e cidadãos passaram a aceitar o convívio diário com o mal em estado puro. É um "tudo bem” crescente, que aceita cada vez mais como normal o que é positivamente anormal — “tudo bem” que policiais sejam assassinados quase todos os dias, que 90% dos homicídios jamais cheguem a ser julgados, que delinquentes privatizem para seu uso áreas inteiras das grandes cidades. E daí? Estamos tão bem que a última grande ideia do governo, em matéria de segurança, é uma campanha de propaganda que recomenda ao cidadão: “Proteja a sua família. Desarme-se”. É uma bela maneira, sem dúvida, de namorar com o suicídio. 


FONTE: Redação - REVISTA VEJA 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Mulher americana, sozinha com dois filhos pequenos, se defende de homem que invadiu sua residência

Mulher não identificada se defendeu utilizando as seis balas do revolver, errando apenas uma

O suspeito Paul Ali Slater foi encontrado com forte sangramento em uma estrada perto do local após bater o carro
O suposto assaltante tentou se dar bem, mas acabou gravemente ferido quando uma mãe se recusou a fazer o papel de vítima e fez vários disparos contra o rosto e o pescoço do meliante.
A mulher não identificada da cidade de Loganville estava em casa com seus filhos gêmeos de 9 anos na tarde da última sexta-feira quando alguém tocou a campainha.
Ela achou que era um vendedor ambulante e não atendeu.
Arrombamento: A mulher estava em casa na cidade de Loganville com seus filhos gêmeos de 9 anos quando o suspeito começou a tocar a campainha
Investigação: Foto de um adjunto do xerife ao lado da casa após os disparos na sexta-feira
Mais do que pediu: Mulher não identificada teria utilizado as seis balas do revolver, errando apenas uma
Mas depois de insistir na campainha, a pessoa começou a forçar a porta com um pé-de-cabra.
Ela rapidamente fugiu para o sótão com os filhos, mas não sem antes pegar seu revólver.
O assaltante, que a polícia identificou pelo nome de Paul Ali Slater, vasculhou todos os cômodos da casa, mas ao chegar ao sótão, ela estava preparada.

Arrebentado: O suspeito foi identificado como Paul Ali Slater, em foto anterior, que possui uma longa ficha criminal e havia saído da prisão recentemente.
O xerife Joe Chapman, do condado do Walton, contou à WSBTV: “O criminoso abriu a porta. É claro, na hora ele estava olhando para ela, seus dois filhos e um revólver calibre 38”.
A mulher teria disparado seis tiros, errando apenas um. Os outros disparos atingiram Slater na região do rosto e do pescoço.
O xerife Chapman contou ao jornal Atlanta Journal-Constitution: “O homem ficou de cara no chão, aos choros. A mulher disse a ele que ficasse no chão, ou atiraria novamente”.
Slater ainda conseguiu se levantar e voltar ao seu veículo, que estava estacionado fora da casa, mas seus ferimentos o deixaram sem condições de dirigir, e não demorou para ele bater o carro numa área de mata.
Ele foi encontrado pelos homens do xerife com forte sangramento em uma estrada do quarteirão.
O xerife Chapman contou ao jornal que ele pediu socorro aos guardas, dizendo: “Estou morrendo. Ajudem-me”.
Ele foi levado ao Centro Médico de Gwinnet para tratar dos ferimentos, e seu quadro é estável.
A agência WSBTV noticiou que Slater tem uma longa ficha criminal e havia sido solto da prisão em agosto.
O marido da autora dos disparos, Donnie Herman, diz estar feliz que sua mulher e filhos estão a salvo.
Herman disse à WSBTV: “Minha mulher é uma heroína. Ela protegeu as crianças. Fez o que tinha que ser feito como uma possuidora de arma de fogo responsável e preparada”.
Uma fuga malsucedida: Slater conseguiu retornar ao seu veículo, mas seus ferimentos o deixaram sem condições de dirigir, e não demorou para ele bater o carro numa área de mata
Marido: Donnie Herman diz estar orgulhoso da esposa, e feliz que sua família está a salvo
Traduzido por Luis Gustavo Gentil do artigo do Daily Mail: “Mother shoots home intruder five times in face and neck after he cornered her in attic with her twins, 9

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Desarmamento e genocídios

Gary North
No dia 24 de abril deste ano, o primeiro genocídio do século XX completará 98 anos: o governo turco dizimou mais de um milhão de armênios desarmados.  A palavra-chave da frase é justamente esta última: "desarmados".
Os turcos escaparam de uma condenação mundial porque utilizaram a desculpa de tudo ter sido uma 'medida de guerra'.  Findada a Primeira Guerra Mundial, eles não sofrerem nenhuma represália por este ato de genocídio.  É como se o governo turco não houvesse conduzido absolutamente nenhuma medida de homicídio em massa contra um povo pacífico.
Outros governos perceberam que o ardil funcionara e rapidamente tomaram nota do fato.  Era um precedente internacional conveniente demais para ser ignorado.
Setenta e nove anos após o início daquele genocídio, o famoso Hotel Ruanda abriu as portas.
Os Hutus também se safaram.  Ironicamente, pelo menos uma década antes do massacre em Ruanda — gostaria de me lembrar da data exata -, a revista americana Harper's publicou um artigo em que profetizava com acurácia este genocídio, e por uma razão muito simples: os Hutus tinham metralhadoras; os Tutsis, não.  O artigo foi escrito em um formato de parábola, sem se preocupar em fazer previsões especificamente políticas.  Lembro-me vivamente de, ao ler aquele artigo, ter imediatamente pensado: "Se eu fosse um Tutsi, emigraria o mais rápido possível".
O fato é que, em todo o século XX, não foi um bom negócio ser um civil.  As chances sempre estavam contra você.

Péssimas notícias para os civis

Tornou-se um lugar comum dizer que o século XX, mais do que qualquer outro século na história conhecida da humanidade, foi o século da desumanidade do homem para com o homem.  Embora esta frase seja memorável, ela é um tanto enganosa.  Para ser mais acurada, o certo seria modificá-la para "o século da desumanidade dos governos para com civis desarmados".  No caso do genocídio, no entanto, tal prática não pode ser facilmente descartada como sendo um dano colateral imposto a um inimigo de guerra.  Trata-se de extermínio deliberado.
O século XX começou oficialmente do dia 1º de janeiro de 1901.  Naquela época, uma grande guerra já estava em andamento; portanto, vamos começar por ela.  Mais especificamente, era a guerra iniciada pelos EUA contra as Filipinas, cujos cidadãos haviam sido acometidos da ingênua noção de que a libertação da Espanha não implicava uma nova colonização pelos EUA.  Os presidentes americanos William McKinley e Theodore Roosevelt enviaram 126.000 tropas para as Filipinas para ensinar àquele povo uma lição sobre a moderna geopolítica.  Os EUA haviam comprado as Filipinas da Espanha por US$20 milhões em dezembro de 1898.  O fato de que os filipinos haviam declarado independência seis meses antes dessa compra era irrelevante.  Um negócio é um negócio.  Aqueles que estavam sendo comprado não podiam dizer nada a respeito, muito menos protestar.
Naquela época, era uma prática comum fazer a contagem de corpos dos combatentes inimigos.  A estimativa oficial foi de 16.000 mortos.  Algumas estimativas não-oficiais falam em aproximadamente 20.000.  Para os civis, tanto naquela época quanto hoje, não há estimativas oficiais.  O número mais baixo fala em 250.000 mortos.  A estimativa mais alta é de um milhão.
E então veio a Primeira Guerra Mundial e as comportas foram abertas — ou melhor, os banhos de sangue foram institucionalizados.

Turquia, 1915

O genocídio armênio de 1915 foi precedido por uma limpeza étnica parcial, a qual durou dois anos, 1895—97.  Aproximadamente 200.000 armênios foram executados.
Os armênios eram facilmente identificáveis.  Alguns séculos antes, os invasores turcos otomanos os haviam forçado a acrescentar o "ian/yan" aos seus sobrenomes.  Como os armênios estavam dispersos por todo o império, eles não possuíam o mesmo tipo de concentração geográfica que outros cristãos possuíam na Grécia e nos Bálcãs.  Eles nunca organizaram uma força armada para oferecer resistência.  E foi isso o que os levou à destruição.  Eles não tinham como lutar e resistir.
Os armênios eram invejados porque eram ricos e mais cultos do que a sociedade dominante.  Eles eram os empreendedores do Império Otomano.  O mesmo ocorreu na Rússia.  O mesmo ressentimento existia na Rússia, embora não com a intensidade do ressentimento que existia na Turquia.
As estimativas não-turcas falam em algo entre 800.000 e 1,5 milhão de armênios mortos.  Embora a maioria destes homicídios tenha ocorrido com o uso de baixa tecnologia, os métodos eram extremamente eficazes.  O exército capturava centenas ou milhares de civis, levava-os até áreas desertas e inóspitas, e os deixava lá até que literalmente morressem de fome.
O nome Arnold Toynbee é bem conhecido.  Já na década de 1950 ele era um dos mais eminentes historiadores do planeta.  Seu estudo, compilado em 12 volumes (1934—61), sobre 26 civilizações não possui precedentes em sua amplitude.  Sua obra O Tratamento dos Armênios no Império Otomano foi sua primeira grande publicação.
Por que algumas organizações armênias não dão ampla divulgação e notoriedade a este documento é algo que me escapa completamente.  O livro está em domínio público.  A seção a seguir, que está na Parte VI, "As Deportações de 1915: Procedimento", é iluminadora.  Leia-a com atenção.  Trata-se do aspecto crucial de todo o genocídio.  O governo confiscou as armas dos cidadãos.
Um decreto foi expedido ordenando que todos os armênios fossem desarmados.  Os armênios que serviam no exército foram retirados das fileiras combatentes, reagrupados em batalhões especiais de trabalho, e colocados para construir fortificações e estradas.  O desarmamento da população civil ficou a cargo das autoridades locais.  Um reino de terror foi instaurado em todos os centros administrativos.  As autoridades exigiram a produção de uma quantidade estipulada de armas.  Aqueles que não conseguissem cumprir as metas eram torturados, frequentemente com requintes satânicos; aqueles que, em vez de produzir, adquirissem armas para repassá-las ao governo — comprando de seus vizinhos muçulmanos ou adquirindo por qualquer outro meio —, eram aprisionados por conspiração contra o governo.
Poucos desses eram jovens, pois a maioria dos jovens havia sido recrutada para servir o estado.  A maioria era de homens mais velhos, homens de posse e líderes da comunidade armênia, e tornou-se claro que a inquisição das armas estava sendo utilizada como um disfarce para privar a comunidade de seus líderes naturais.  Medidas similares haviam precedido os massacres de 1895—96, e um mau presságio se espalhou por todo o povo armênio.  "Em uma certa noite de inverno", escreveu uma testemunha estrangeira desses eventos, "o governo enviou soldados para invadir as casas de absolutamente todos os armênios, agredindo as famílias e exigindo que todas as armas fossem entregues.  Essa ação foi como um dobre de finados para vários corações".

Desarmamento

Lênin desarmou os russos.  Stalin cometeu genocídio contra os kulaks ucranianos durante a década de 1930.  Pelos menos seis milhões de pessoas foram mortas.
Como mostrou a organização Jews for the Preservation of Firearms Ownership (Judeus pela Preservacao da Propriedade de Armas de Fogo), o modelo do Decreto do Controle de Armas de 1968 nos EUA — até mesmo as palavras e o fraseado — foi copiado da legislação de 1938 de Hitler, a qual, por sua vez, era uma revisão da lei de 1928 aprovada pela República de Weimar.  Uma boa introdução a esta história politicamente incorreta da história do controle de armas pode ser vista aqui.
Quando as tropas de Mao Tsé-Tung invadiam um vilarejo, elas capturavam os ricos.  Em seguida, elas ofereciam a devolução das vítimas em troca de dinheiro.  As vítimas eram libertadas quando o pagamento fosse efetuado.  Mais tarde, o governo voltou a sequestrar essas mesmas pessoas, só que desta vez exigindo armas como resgate.  Ato contínuo, assim que as armas eram entregues, as vítimas eram libertadas.  Essa mudança de postura — exigir armas em vez de dinheiro — fez com que a negociação parecesse razoável para as famílias das próximas vítimas.  Porém, tão logo o governo se apossou de todas as armas de uma comunidade, os aprisionamentos e as execuções em massa começaram.
A ideia de que o indivíduo tem o direito à autodefesa era tão comum e difundida no século XVIII que ela foi escrita na Constituição americana: a segunda emenda.  Carroll Quigley, eminente historiador e teórico da evolução das civilizações, era também um especialista na história do uso de armas pela população.  Ele escreveu um livro de 1.000 páginas sobre o uso de armas como meio de defesa durante a Idade Média.  Em sua obra Tragedy and Hope (1966), ele argumenta que a Revolução Americana foi bem sucedida porque os americanos possuíam armas de poder de fogo comparável àquelas em posse das tropas britânicas.  Foi exatamente por isso, disse ele, que houve toda uma série de revoltas contra governos despóticos em todo o século XVIII. 
Tão logo as armas em posse do governo se tornaram superiores, os movimentos e manifestações em prol da redução do tamanho do estado deixaram de ter o mesmo êxito que haviam tido nos séculos anteriores.
Há uma razão por que os governos são tão empenhados em desarmar seus cidadãos: eles querem manter seu monopólio da violência a todo custo.  A ideia de haver cidadãos armados é apavorante para a maioria dos políticos.  Afinal, para que serve um monopólio se ele não pode ser exercido?  Cidadãos armados impõem um limite natural à tirania do estado. 

Conclusão

Genocídios acontecem.
Mas não há genocídio quando os alvos estão armados.